Avançar para o conteúdo principal

Tela Negra de Deus

São enigmáticos os caminhos de Deus.
Mas Ele sabe. Ele pinta a tela do nosso destino. Usa as suas próprias tintas de pigmentos misteriosos e indecifráveis. Pinta sob uma tela que nos oferece no dia em que nascemos e nos desafia a percorre-la. É uma tela negra que se revela a cada dia, em cada momento… É uma missão arrojadiça com que nos deparamos.
São caminhos entrecortados e repletos de dicotomias. Parece-nos que temos de escolher por onde ir… e escolhemos, convictos de que estamos a traçar o nosso destino. Mas é um equívoco. O caminho está traçado desde o início. O final é conhecido, mas só por Ele. A nós cabe o emprazamento de descobrir e de aprender com cada meandro nebuloso dessa jornada.
Palmilhamos muitas vezes veredas sombrias e solitárias. Assustadoras, por vezes. Sentimo-nos perdidos e sozinhos, assustados. E quando O começamos a odiar, quando caímos prostrados de joelhos, blasfemamos, e lavados em lágrimas perguntamos “Porquê?!?... Porque me pões assim à prova?!?” …
Ele não responde. Ele nunca responde! Ele apenas revela… E cabe a nós compreender o novo ensinamento, e do novo soerguer o corpo e o espírito para encetar nova caminhada. Mais humildes, mais resignados perante a evidência de que somos apenas um laivo na nossa própria tela.
Resta-nos acreditar que é nesses momentos de sombria e nebulosa solidão, em que nos sentimos abandonados num caminho que temos de percorrer sozinhos, que somos secretamente carregados ao colo por anjos. E estes, por sua vez, só o fazem para que não desperdicemos tempo caminhando apenas, mas sim a estudar a fórmula que permite anunciar a tela negra que Deus para nós pintou.
Hugo Pinto – Março de 2007

Comentários

Anónimo disse…
Ao ler o teu texto, a sensação que fica é ambígua. Brilhante na forma e apetece parabenizar-te pela facilidade e profundidade com que "brincas" com as palavras, mas preocupante e surpreendente no conteúdo. É estranho ver-te fazer a apologia da resignação. Liberta-te rapidamente desta misantropia que te invadiu e, como dizia Torga:
"Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."
veranovo disse…
Parabens por esta reflexão!

Mensagens populares deste blogue

Uma mente desocupada, é o recreio do demónio. Uma mente ociosa é o recreio do demónio. É mais uma daquelas frases que lí nas legendas de um qualquer filme e que, por alguma razão, guardei. Hoje, apetece-me imenso reescrevê-la. Uma mente desocupada, é o recreio do demónio. Cobiço esmiuçá-la, estudá-la, compreendê-la. Quando temos tempo livre e pouco para fazer, alguns de nós resolvem pensar. Pensar na vida, pensar no passado, pensar no futuro. A uma velocidade tal que pensamentos e sentimentos se misturam e complementam, poluindo-se biunivocamente, e tornando tudo muito confuso. Entramos assim numa espiral de loucura, de insanidade, em que tudo é posto em causa e não somos capazes de discernir a realidade da fantasia, o inovador do imbecil, enfim, o certo do errado. Uma mente perdida neste emaranhado não é uma mente ociosa. É uma mente que, por desocupada, resolve entreter-se com o que de mais lamacento vive no nosso subconsciente. São sentimentos que nos assaltam. Que nos ca...

O Senhor das Uvas

É fim de Verão. O Outono já espreita e com ele a languidez de dias que diminuem. Uma toalha de praia esquecida no carro ainda tem o cheio do mar, da areia, das algas, do protetor solar. Os dias estão menos quentes. Também não são frios… Suspiramos o fim do verão e sentimo-nos nostálgicos quando a noite chega sem aviso. Ainda é tão cedo e já está a escurecer!... O fim de tarde é dourado pela mistura da luz do Sol, que entretanto se esconde, e de algum candeeiro mais zeloso do seu dever, que resolve adiantar-se na sua função … De repente ouvem-se vozes na rua. Muitas vozes. Muita gente, atarefada. E ao mesmo tempo sente-se alegria na sua voz. É gente do campo que regressa das vindimas. Não resisto e corro à janela. Espreito… Um carro puxado por vacas avança lentamente, ultrapassando com dificuldade o paralelo da rua. O ritmo desajeitado dos animais e a incerteza do calceteiro que combinou o paralelo fazem o carro tremer. O grande tonel que vai em cima dele estremece e faz ranger as cor...
Cogito ergo sum Chovia copiosamente. Estava frio. Da varanda podia ver no restaurante defronte de minha casa, duas mesas em que comensais famílias agasalhavam o ser. Confortáveis. Cálidos. Na rua que se nos entremeava, um camião de recolha do lixo levava ao dependuro dois homens que recolhem, todas as noite, o lixo de outros seres. Um coberto com um oleado amarelo. Outro sob um guarda-chuva lilás. Ambos encharcados. Provavelmente enregelados. Num primeiro momento fui assaltado pela incongruência de tal quadro. Homens rudes, que recolhem lixo, cinzento, putrefacto, fétido, como que apêndices de uma máquina que devora o que outros excretam, abrigados em parcos acessórios coloridos e festivos. Mas eis que logo se me assomou a imagem dos outros, comensais, cálidos. Meu Deus, o contraste. Que dois mundos tão próximos e tão díspares. E eu, atónito, entre ambos (literal e metaforicamente). Percebi nesse instante o sonho impossível (utópico?) de Marx. Ele mesmo uma disparidade na filiação...